CONIMBRIGA

A luta levada a cabo pelos exércitos romanos para o controlo do território em que hoje se situa Portugal durou perto de dois séculos. Iniciada no começo do século II a.C., pode considerar-se terminada em 25 a.C., ano em que César Octaviano, o Augusto, termina a campanha em terras do Noroeste peninsular. A pertença do território ao Império Romano manter-se-á até á desagregação do Estado imperial , com a penetração na Ibéria de povos armados, os chamados bárbaros invasores -Suevos, Vándalos, Alanos -, logo nos primeiros anos do século V. Tudo começou em Ampúrias, na costa hoje catalã. Em 218 a.C. as primeiras legiões romanas desembarcaram na cidade, no quadro das guerras que Roma trava com Cartago para o dominio do Mediterrâneo Ocidental. Vencidos os rivais cartagineses, os romanos têm o terreno aberto na Península Ibérica. No entanto, têm de fazer agora frente aos peninsulares. Não formando, de modo algum, um todo homogéneo, os povos da futura «Espanha» vão reagir de modo diferente á ocupação militar romana. Mais integrados no espaço cultural mediterrânico, mais afins dos invasores, os povos do Sul parecem não terem oposto grande resistência aos novos senhores. Porém, a partir da linha marcada pelo rio Tejo as dificuldades de penetração para Norte foram significativas.

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Caberá a Décimo Júnio Bruto a primeira grande ofensiva. A progressão será feita a partir de Olisipo e de Moron (perto de Santarém), pelo litoral, até ao rio Minho, que atingirá ainda em 138 a.C. Teria todavia de passar ainda mais de um século para que a Península pudesse ser considerada submetida á paz romana. Será sob o comando de Augusto que as legiões romanas, avançando simultaneamente do Sul e do Leste, vão encontrar-se no extremo Noroeste peninsular. Chegámos ao ano 25 a.C. A ocupação militar romana, como enquadramento administrativo do território, veio criar condições para a aculturação dos povos locais, a sua adesão ao saber, aos valores, aos hábitos e ás formas de comportamento do invasor. A Península Ibérica foi romanizada. E foi-o de maneira profunda. Para além das vicissitudes políticas, para além da desintegração do Império Romano, houve traços culturais que foram de tal maneira absorvidos pelos povos locais que eles criaram uma nova identidade ou, pelo menos, importantes tratos identificadores da sua personalidade. Uma nova língua, por ela e através de línguas suas derivadas, acabou por monopolizar quase integralmente - a excepção é o País Basco - o espaço peninsular. Uma nova religião, o cristianismo romano e imperial, veio introduzir novas fórmulas e formas integradoras, moldar o pensamento religioso oficial e enquadrar o pensamento religioso de carácter popular. As relações entre os homens passaram a ser regidas por normas criadas em Roma e adoptadas na Península. Povoações romanas, ou desenvolvidas pelos romanos, deram em muitos casos origem a grandes cidades portuguesas. Lisboa, Braga, Coimbra, Faro, Santarém, Viseu, estão neste caso. Outras não tiveram continuidade ou acabaram por aglutinar no seu sítio populações escassas, organizadas em povoados medíocres, como a civitas Igaeditanorum ou Conímbriga.

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CONÍMBRIGA é um sítio arqueológico privilegiado. E deve-o, grandemente, á sua localização. Objecto de descoberta, de interrogações, de estudo, Conímbriga teve a sorte de encontrar-se a uma dúzia de quilómetros de distância da que, durante centenas de anos, foi a sede do saber oficial em Portugal - a Universidade de Coimbra.  Foi assim que esta cidade morta, cuja existência ainda se prolongou para além da queda do Império Romano, atraiu as atenções dos estudiosos que a avizinhavam.

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Os mais antigos vestígios arqueológicos do sítio de Conínibriga parece datarem do século IX a.C. Aqui se teria implantado uma povoação fortificada – ligada certamente com a foz do rio Mondego através de um rio dos Mouros limpo de sedimentos - em que estariam patentes as marcas da civilização mediterrânica. Com o decorrer do tempo, fazer-se-iam sentir outras influências, célticas, até que, com a chegada dos exércitos romanos ao extremo ocidente peninsular, no século II a. C., a «cidade dos Cónios» será submetida aos invasores.

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Longe de constituir uma das principais cidades luso-romanas -pense-se na Olísipo/ Lisboa, na Bracara/Braga-, Conímbriga deriva parte da sua importância ao situar-se justamente num local de passagem da estrada que unia estas duas cidades, entre Sellium/Tomar e Aeminium/ Coimbra. No reinado do imperador Augusto (César Octaviano, 30 a.C.-14 d.C.), Conímbriga é nobilitada com magníficos edifícios públicos, o fórum e as termas, nomeadamente. Nos séc. I-II d.C., a demonstrar um importante estatuto político, a cidade, que passara a ser designada por Flavia Conímbriga, vai ser dotada de novos instrumentos de prestígio - um novo fórum (fórum flaviano) e novas termas (termas trajánicas).

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Na passagem do século III para o século IV, o estruturado Império Romano começa a desagregar-se. Paralelamente ao desaparecimento de uma autoridade central, os povos «bárbaros», nómadas ou seminómadas, multiplicam as incursões pelo território. É desta época que datam as ainda imponentes muralhas da cidade. Mas estas defesas não bastam para proteger Conímbriga.  Em meados do século V os suevos assaltam-na.  Depois os visigodos ocupam-na. É o começo do fim. No final do século VI o bispo de Conímbriga transfere-se para Aeminium/Coimbra.  E nem o próprio topónimo resistirá a abandonar Conímbriga.

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